Luz, Câmera, Escolha

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Matthew McConaughey, vencedor do Oscar por sua atuação em “Clube de
Compras Dallas”, emagreceu quase 20 quilos para incorporar seu personagem.
Para interpretar uma serial killer em “Monster: Desejo Assassino”, Charlize
Theron engordou, pintou as sobrancelhas, usou lentes de contato e dentes
postiços, e colocou próteses no rosto – esforços que lhe renderam o Oscar de
melhor atriz.
Jared Leto já fez dietas surreais pela indústria hollywoodiana: engordou mais de
30 quilos para interpretar o assassino de John Lennon e emagreceu até os quase
50 quilos para seu personagem em “Clube de Compras Dallas”, pelo qual ganhou
o Oscar de melhor ator coadjuvante.
Fora os atores que já dispensaram dublês, correram riscos ou até se
machucaram para garantir a impecabilidade de uma cena.
Afinal, vale tudo em nome da arte, não é?
Depende.
Se a escolha for sacrificar o próprio bem-estar, como nos casos acima, talvez.
Se a escolha for sacrificar o bem-estar do outro, como no caso do cão Hércules,
forçado a entrar numa piscina com forte correnteza durante as filmagens de
“Quatro Vidas de um Cachorro”, mesmo estando incontestavelmente apavorado,
não.
Não só porque é cruel, não só porque é errado, não só porque é inadmissível.
Simplesmente, porque Hércules não escolheu passar por aquilo.
Assim como o tigre King também não escolheu quase morrer afogado nos
bastidores de “As Aventuras de Pi”.
Assim como a orca Keiko não escolheu estrelar o clássico “Free Willy”.
Assim como os cinco golfinhos que interpretavam “Flipper” no famoso seriado da
década de 1960 não escolheram trocar a liberdade de casa por um tanque de
cinco minutos de fama.
Até existe uma organização nos EUA – a AHA (American Humane Association) –
que deveria fiscalizar e garantir o bem-estar dos animais nessas produções. O
problema é que a ONG, responsável por emitir o certificado “No animals were
harmed”, já esteve sob suspeita de encobrir diversos casos de maus-tratos em
Hollywood, como o próprio incidente com King no longa de Ang Lee.
Sem contar que, principalmente os animais selvagens, além de não terem
escolhido os holofotes dos sets de filmes publicitários, longas, curtas e séries,
também não escolheram sofrer os abusos psicológicos – e, em alguns casos, até
físicos – causados pelo cativeiro a que são submetidos para o treinamento.
Certa vez, um chefe incrível que tive me ensinou: quando escrever um artigo,
nunca aponte um problema sem apontar uma solução.
Colocando em prática o que aprendi, regras mais rígidas, punições mais severas
e instituições que fiscalizassem de verdade o que hoje fingem fiscalizar já seria
um adianto e tanto para evitar que animais sejam explorados
indiscriminadamente pela indústria cinematográfica e publicitária – não só
americana, mas mundial, porque isso acontece com mais frequência do que se
imagina, em diversas partes do mundo, inclusive por aqui, no Brasil.
Além do que, hoje, com os recursos de animação avançadíssimos disponíveis,
seria ainda mais fácil regularizar e proibir participações animais em produções
que possam violar o bem-estar dos bichos.
No entanto, a solução mais eficaz – e, ao mesmo tempo, mais complicada e mais
distante – seria uma mudança hierárquica de consciência: que direito temos nós,
humanos, de obrigar um cachorro a entrar numa correnteza ou de tirar uma
orca da natureza para fazer piruetas?
Assim, para o treinador e para todos os coniventes com os casos do cão
Hércules, do tigre King, da orca Keiko e dos golfinhos Flipper, que acreditaram,
por algum momento, que vale qualquer sacrifício em nome da arte, a réplica
seria simples:
Fale por você. Não por eles.

Por Carol Zerbato
Publicitária e ativista

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